Entrevista com Prof. Dr. Francisco AC Vale – UFSCar, Departamento de Medicina 27.04.2010

00:00:40 – 00:00:45 Felipe
Então eu queria que você explica-se o que é o Déjà Vu pra vocês da area da neutologia.

00:00:46 – 00:02:19 Francisco
Então isso é um fenômeno psíquico que pode ocorrer, Felipe, em diversos contextos. Desde situações normais, impressões que a gente pode ter, desencadeadas por algum gatilho. A gente pode ter isso como impressão. Mas isso pode ocorrer também no contexto de doenças, doenças neurológicas, doenças psiquiátricas, podendo ir de um extremo ao outro: da ocorrência normal a uma doença neurológicas ou psiquiátricas. Déjà Vu (deja vi) é uma expressão do francês que significa mesmo “já vi”, “já visto”, e Jamais Vu,
“jamais visto”, “nunca visto”. É o extremo. Quer dizer existe um análogo pra auditivo que é Deja Autendi, impressão de que já ouviu alguma coisa. O que é o Deja Vu? O Deja Vu é uma impressão de que você já viu aquela coisa, aquela cena, aquele local que você chega aparentemente pela primeira vez que você tem a sensação que já esteve lá que já conhece.

00:02:20 – 00:02:24 Felipe
Mas por que ocorre essa sensação?

00:02:24 – 00:03:21 Francisco
Essa sensação como lhe falei ela pode ser dentro de um contesto normal até doença. Agora ela ocorre por estimulação, quando é posto em ação um conjunto de circuitos cerebrais que se manifestam dessa forma. O nosso cérebro é todo entrelaçado de circuitos, é um entrelaçamento absurdamente grande de circuitos, células com células. Existem incontáveis circuitos em nosso cérebro. E algum desses que liga áreas visuais à áreas de memórias e a interação nesses circuitos, a produção mental que você tem é essa impressão, essa sensação. É uma produção mental.

00:03:22 –00:03:24 Felipe
É como se fosse um desvio do caminho normal?

00:02:25 – 00:03:40 Francisco
Não. Não pode ser um caminho normal mesmo porque pode ocorrer em uma situação absolutamente normal. Muitas pessoas tem sensações, tem impressões de Deja Vu em circunstancias normais. Sem estarem doentes, sem ter nenhum problema psicológico.

00:03:41 – 00:03:43 Felipe
E porque isso acontece normalmente?

00:03:44 – 00:03:56 Francisco
Provavelmente um gatilho qualquer, uma informação daquele ambiente, daquela cena que ela tá presenciando, que funciona como um gatilho, que aciona essa circuitaria, que cujo produto é esta sensação.

00:03:57 – 00:04:02 Felipe
Então esse elemento seria algo que ele talvez já viu e que ele relaciona com aquela situação naquele momento?

00:04:03 – 00:06:01 Francisco
Sim. Mas ai, o Deja Vu é uma impressão que você já viu aquele fenômeno, que já presenciou aquela cena, já viu aquele ambiente que você chego, mas você nunca viu aquela cena e nem chego lá. Então o Deja Vu é uma impressão psíquica, uma produção mental de que você viu aquela cena, aquele local, aquele ambiente que você chega. Mas não viu, nem esteve lá. Porque se você viu, esteve em determinado local e volta aquele local um tempo depois, sem lembrar que já tinha estado naquele local, mas tinha estado naquele local, e quando chega a segunda vez e tem a impressão de “a eu já vim aqui”, ai não é Deja Vu. Ai é uma reminiscência mesmo, é uma memória que tá sendo evocada. Provavelmente vai depender da concentração dele, de quanto ele insiste aquela memória vai vindo mais fortemente até que chega um momento e ele diz “ah lembrei quando que eu vim aqui foi 10 anos atrás numa situação tal”. Não é Deja vu. Deja Vu é uma produção mental quando um determinado circuito é acionado por um gatilho qualquer, cuja produção, cujo resultado é a sensação de que você já viu aquele fenômeno. Já viu aquela cena ou já viu aquele local.

00:06:02 – 00:06:18 Felipe
Porque eu já tive muitos deja vus e a impressão que eu tinha era de um desconhecimento e um medo, me passava um medo. Me passava um não pertencimento, acho que essa é a palavra melhor.

00:06:19 – 00:06:20 Francisco
Me de um exemplo.

00:06:21 – 00:06:43 Felipe
Por exemplo eu fui pra Brasília e eu cheguei num local e eu tinha a absolutamente certeza que eu já tinha visto aquilo, mas eu nunca tinha ido pra Brasília então ao mesmo tempo que eu tinha certeza que tinha visto aquilo eu tinha certeza do contrario. Então me causava um estranhamento e um medo causado por esse desconhecimento, esse medo tem alguma coisa relacionada?

00:06:44 –00:07:58 Francisco

Nessa cituação tem vários fenômenos psicológicos e mentais envolvidos. Você teve um Deja Vu, uma sensação que já esteve naquele local especifico. E no seu caso foi fácil de entender que era uma impressão falsa porque você tinha o conhecimento que nunca esteve em Brasília, compreende? Desse confronto da sensação que seu cérebro teve, portanto você, e conhecimento racional de que você nunca esteve lá, desse confronto surgiu um SENTIMENTO que é o estranhamento. Uê que coisa estranha! E o medo que esta associado a esse estranhamento. Porque a gente tem medo de tudo que a gente não conhece: o medo é uma reação muito comum diante daquilo que a gente não conhece, não sabe que tá acontecendo. O medo é uma emoção muito básica.

00:07:59 – 00:08:04 Felipe
Como que o medo trabalha na questão do cérebro? É um sistema de defesa…

00:08:05 – 00:08:50 Francisco
O medo tem filogeneticamente (quando a gente fala do desenvolvimento da espécie animal desde milhões de anos atrás até hoje). Então filogeneticamente quando eu falo do homem, por exemplo, eu falo desde homem nos seus primórdios pré homo sapiens até hoje. Essa evolução filogenética. Então filogeneticamente o medo é uma emoção básica cuja principal utilidade é defesa, é preservação. É auto preservação

00:08:50 – 00:08:52 Yasmin
E o medo não é so do ser humano?

00:08:53 – 00:09:10 Francisco
Quem tem medo, comumente, foge. A melhor maneira de auto-preservação é a fuga não é o enfrentamento. Isso filogeneticamente, no seu caso Felipe, não tinha nenhuma função de defesa, quer dizer você teve uma emoção em função do seu estranhamento com a situação.

00:09:11 – 00:09:57 Felipe
Eu queria que você fizesse um pouco a ponte com a questão do tempo, porque a gente cria um conceito que é só nosso. Eu queria que você falasse um pouco como funciona essa questão da memória no nosso cérebro porque o que eu pensei quando você falou sobre isso é que essa questão do presente e do passado é também uma forma de sobrevivência não é? De você ter esse conceito de você pensa o que presente, passado e futuro é uma forma da gente estabelecer conexões (Yasmin: de ter uma segurança?). É que facilita a nossa sobrevivência como espécie.

00:09:58 – 00:11:58 Francisco
De certa forma sim porque são referencias importantes que você tem. Na verdade, porque filogeneticamente é difícil de você separar esses três momentos, porque cada momento você está especificamente, ele pode ser dividido ade im finitum em um momento cada vez menor. Então o que é o presente afinal? E se você não consegue definir o presente, difícil definir o futuro. Como se a cada momento seu você fosse presente e futuro. E passado é a mesma coisa né? É aquele mesmo momento que se você imagina uma subdivisão ade im finitum até o limite que não tem, você pode seccionar o tempo até o limite que não tem. A física ainda não resolveu essa questão. Quanto pode se dividir o tempo. Então o nosso cérebro é a interface que nos temos ai pra entender as coisas, lê o mundo, tenta entender e sentir as coisas ou não. O cérebro é por definição esse órgão do corpo, cujo produto, cuja a função é a mente. Quer dizer a mente não é só um produto do cérebro, tem outras coisas a ser discutidas possivelmente.

00:11:59 – 00:12:12 Felipe
Qual é a área em que acontece esse fenômeno? Tem algum lugar especifico que está relacionado com a memória?

00:12:13 – 00:14:17 Francisco

Não, não tem uma área especifica não. Você sabe que não há praticamente nenhuma função que seja especificamente relacionado com uma área pequena do cérebro. A gente fala mais em circuitos. Então quando a gente fala de áreas cerebrais, localização, a gente tá se referindo a localização preferencial. Vou lhe dar um exemplo.Um aspecto da fala. A fala tem uma importante área de localização aqui nessa região frontal, mais baixo, mais posterior, da parte frontal do cérebro, no hemisfério esquerdo. È uma importante área relacionada com a fala, chame-se área de broca. Mas tem outra importante área da fala no giro temporal um poquinho mais pra trás e mais pra cima: chama-se área de veringue. É outra área relacionada com fala também e as duas se comunicam. Tem outra área mais pra cima e mais pra trás na região paleotal relacionada com aspecto de escrita e leitura, então você tem diversas áreas e circuitos. A gente fala muito modernamente em circuitos, relacionadas com funções, como é a memória, como é o medo. O medo tem seus circuitos também. Envolvem diversas áreas preferenciais, mas estão em circuitos. Por isso que você pode ter sensações de medo desencadeadas por diversos estímulos quanto esse que você teve, um estranhamento de uma situação ou a visão de uma cobra ou uma ameaça de alguém fisicamente

00:14:18 – 00:14:23 Yasmin

E existem pessoas que tem mais predisposição a ter Deja Vu, crianças…

00:14:24 – 00:15:04 Francisco

Não a populações desse tipo não. Não há nenhum estudo que eu conheça que diga que tipo, qual faixa etária, ou que etinia, ou que gênero masculino, feminino. Não há diferença nesse sentido. É um fenômeno muito interessante, mas bastante diverso, porque pode ocorrer com pessoas em situações normais, não associado a doenças mentais ou transtorno mental algum, mas esse contexto psicológico vai ocorrer em doenças psíquicas como é o caso da epilepsia por exemplo.

00:15:05 – 00:15:07 Felipe
Eu queria que você falasse um pouco mais sobre isso então.

00:15:08 – Francisco
De um exemplo em doença neurológica? Então… Epilepsia por exemplo. Epilepsia é um transtorno neurológico, uma doença, que pode ter múltiplas, diferentes, diversas manifestações. As chamadas crises epiléticas podem ter manifestações muito diferentes. Desde uma sensação como deja Vu, até uma crise compulsiva com queda, aquela típica com abalos musculares. O fenômeno deja vu pode ser uma manifestação de uma crise epilética.

00:16:03 – 00:16:04 Felipe
E ela se dá com que freqüência?

00:16:05 – 00:16:34 Francisco
Depende do caso da pessoa, tem pessoas epiléticas que tem crises diárias, outras tem crises uma ou duas vezes por ano, depende da resposta que a pessoa tem ao tratamento instituído, o medicamento, ou remédio… ela pode ter crises freqüentes ou crises rasas, pode ter nenhuma crise enquanto esta tratando com medicamento.

00:16:35 – 00:16:36 Felipe
E tem tratamentos, remédios específicos pra isso, ou é pra epilepsia em geral?

00:16:37 – 00:17:02 Francisco
Pra epilepsia, não especificamente pro Deja Vu. A epilepsia que se manifesta com o Deja Vu, o tratamento é o mesmo para crises que se manifestam por outros sintomas: alteração de força, sensibilidade corporal, de visão

00:17:03 – 00:17:05 Felipe
E vocês sabem porque está relacionado a epilepsia com o Deja Vu?

00:17:05 – 00:18:19 Francisco
A epilepsia, a crise epiléptica que é a manifestação da epilepsia, ela ocorre em função da atividade anormal de um grupo de neurônios de determinada parte do cérebro. Dependendo da parte do cérebro onde aquele grupo de neurônios está funcionando de maneira anormal, ocorrem sintomas diferentes dentro da área onde estão esses neurônios. Então é o que comumente os leigos chamam de foco epilético, é um termo bem leigo, não é um termo técnico. Então você pode ter um grupo de neurônios disparando seus impulsos de forma anormal e portanto gerando o sintoma que é a crise epilética. Esses podem estar em diferentes regiões do cérebro. Dependendo de onde ele esteja, os sintomas que ele vai manifestar está relacionado com isso.

00:18:19 – 00:18:21 Felipe
Então vocês conseguem diagnosticar dependendo da onde acontecem?

00:18:22 – 00:18:36 Francisco
Conseguimos, dependendo da clinica, do tipo de sintoma, e também com as ajudas dos exames: o encefalograma, os exames de neuro-imagem, compreende?

00:18:37 – 00:18:46 Yasmin
Eu queria saber se é possível reproduzir os Deja Vus em laboratório, experimentalmente.

00:18:47 – 00:21:39 Francisco
Eu não conheço experimentos especificamente dessa forma. O que eu conheço e parece muito com isso que você está perguntando foram experimentos clássicos que ocorreram na década de 50, no século passado. Na metade do século, um pouco mais, um conjunto de neurocientistas e neurocirurgiões muito criativos começaram a fazer determinados experimentos que eram… quando eles iam operar pessoas epiléticas naquela época tinha uma proposta de cirurgia pra tratar epilepsia, bem diferente da que existe atualmente moderna, mas naquela época quando começou. Então esses neurocientistas quando eles iam operar uma pessoa com foco epilético precisavam localizar onde está o grupo de neurônios, e eles localizavam com estímulos, pequenos eletrodos, microeletrodos, pequenos impulsos elétricos, microvolts…Eles estimulavam e o individuo relatava o que estava sentindo, qual era a produção mental. Porque essas pessoas estavam sob uma sedação leve elas não estavam anestesiadas, não sentiam dor nem nada, então elas conseguiam dizer, falar com seu cérebro aberto sendo estimulado. O que acontecia muitas, dependendo das pessoas, da região onde era estimulada, as regiões temporais próximas a áreas relacionadas com circuitos importantes da Memória, essas pessoas relatavam experiências que elas haviam tido a muito tempo, muitas dessas na infância. E elas relatavam essas experiências e dizem que era mais do que uma lembrança, elas tinham uma sensação vivida que estavam experienciando aquela coisa, naquele momento! No entanto elas sabiam que estavam numa sala de cirurgia e isso lhes causava estranhamento. Mas é fantástico as descrições dessas pesquisas. Hoje já não se faz mais esse tipo de pesquisa porque hoje você tem outros mecanismos de localização da região epileptogena pra indicar a cirurgia.

00:21:40 – 00:21:43 Felipe
Você sabe se existem livros onde a gente pode encontrar esses relatos?

00:21:45 –00:22:24 Francisco
São livros de neurologia e na verdade você encontra mais esses relatos num livro de um autor chamado Penfild, um dos que mais fez experimentos dessa natureza e se você coloca nos sites de busca médica você vai encontrar uma profusão de coisas.

00:22:25 –00:22:56 Felipe
Na experiência do Deja Vu você não consegue diferencia muito a uma sensação de memória. Tem como diferencia?

00:22:57 – 00:23:59 Francisco
Não é uma sensação muito semelhante o Deja Vu com a memória verdadeira, vamos exemplificar de um lugar onde você chego e tem impressão que já viu aquele local, já esteve lá. É a mesma impressão de uma memória verdadeira, só que na memória verdadeira você pode com a evolução dessa idéia, pegando outras informações, outros gatilhos dentro do seu cérebro você pode ir aumentando essa lembrança até chegar no momento que você vai dizer: Ah! Lembrei, eu realmente estive aqui, foi quando eu namorei aquele rapaz, tal. O deja vu não porque fica sempre na impressão. Não existe o fato (Felipe:não existe aquela ponte). Não porque não existe o fato, não existe a memória.

00:23:00 – 00:23:02 Felipe
O alzeimer é um pouco isso não é?

00:23:03 – 00:24:30 Francisco
Não o alzeimer é diferente. Bem diferente. O mau de alzeimer é uma doença neuro-degenerativa, uma doença neurológica que afeta o cérebro da pessoa diretamente, ela afeta a célula do cérebro: o neurônio. E ela causa uma atrofia e conseqüente morte daquela célula.

00:24:31 – 00:24:36 Felipe
Mas eu pergunto mais da sensação. Porque a pessoa com alzeimer consegue recordar.. como funciona o cérebro de uma pessoa com alzeimer?

00:24:37 – 00:27:00 Francisco
O mais característico na doença de alzeimer, o fenômeno mais típico é a perda de memória. Mas na verdade a doença de alzeimer não é só a perda de memória, como é uma doença que afeta o cérebro, a perda de memória é apenas um dos sintomas, apesar de ser mais chamativo, mais conhecido. Tem inúmeras outros sintomas que o doente de alzeimer tem: a perda de memória com a pessoa doente de alzeimer nas fases iniciais da doença é uma desporporção muito grande entre a memória que a gente chama de recente e remota. Então a pessoa ela perde muito do que a gente chama de memória recente, com relativa preservação da memória remota. O que é a memória recente? É aquela memória de ontem, de hoje cedo.. E a memória remota é aquilo que aconteceu lá trás, na adolecencia, no caso de vocês na infância. A pessoa com doença de alzeimer, no inicio da doença ela pode ser capaz de não lembrar o que almoçou ontem, mas ela pode lembrar o primeiro emprego, um namorado da juventude, nome da professora. Porque são memórias diferentes em circuitos diferentes, localização diferente. E ai o que acontece, como a pessoa tem perda da memória recente essa dificuldade com a evolução, há uma tendência a ela se fixar mais no passado: que é a memória que esta preservada. Até que com a evolução da doença ela passa confundir memória de passado com a de agora, como se estivesse experienciando aquilo. Então ela pode conversar com os filhos como se eles fossem crianças, os filhos sendo adultos. Porque a memória que preserva dela é a dos filhos ainda quando crianças, as mais recentes apagaram. Interessante né?

00:27:00 – 00:27:02 Felipe
Acho que isso é como se fosse um deja vu eterno. Ou não, é diferente?

00:27:03 – 00:27:42 Francisco

Não é diferente porque é uma vivencia no passado. Ela não tem a sensação, deja vu é uma percepção que você tem e você descreve. Ah tenho impressão que já passei nesse lugar, que já vi esse filme! Mas isso nunca aconteceu. Se aconteceu você está lembrando não é deja vu, é uma reminiscência, é uma memória.

00:27:42 – 00:28:31 Felipe
Minha prima já me falou de uma doença que eu não lembro o nome, mas eu lembro que era assim: eram pessoas que, não lembro se era um problema neurológico ou de visão, mas eram pessoas que não podiam por exemplo colocar água em um copo, porque elas enxergavam o passado. Então é como se ela ta pondo água no copo ela vê metade, quando ela vê denovo o copo já transbordo. É como se fosse um atraso… é como no cinema que você tem a impressão do movimento, é como se elas não tivessem esse movimento (enxergar a vida em fotos). Você tem conhecimento sobre essa doença?

00:28:32 – 00:30:18 Francisco
Isso faz parte de um grupo de alterações mentais que a gente chama de alterações cognitivas que a gente chama de agnosia. As agnosias são um mundo de manifestações diferentes. Ela consiste em você não reconhecer significado de determinado símbolo ou objeto ou cena. Então tem varias manifestações de agnosia. Uma simples: agnosia tátil. Então se eu puser, feche os olhos (indica para Felipe). Eu coloco isso na sua mão (caneta), pode pegar. O que é isso? (Felipe: uma caneta). Uma caneta, uma gnosia, pode abrir os olhos. Isso é uma gnosia, agnosia é anormalidade. Pessoas com esse problema psicológico, você da uma caneta pra ele e não consegue reconhecer, ele diz assim: é um objeto com superfície lisa, rígido, tem mais ou menos 20 cm. E o que é? Não sabe. Ah é uma caneta (ao abrir os olhos). Então mudou da sensação tátil para visual ela já identificou,

00:30:19 – 00:30:21 Felipe
E agnosia relacionada com a visão tem?

00:30:22 – 00:30:50 Francisco
Tem agnosia visual, tem ou contrario de eu mostrar o que é isso e a pessoa não reconhecer: aqui é uma caneta, visualmente. E até mais interessante é que se eu entregar a caneta na mão dela ela começa automaticamente escrever, a utilizar o objeto, mas não reconhece. Esse campo das funções que a gente chama de cognitivas, dentro da neurologia é um campo facinante.

00:30:52 – 00:30:54 Yasmin
Existe na fala também essa agnosia?

00:30:55 – Franciso
Existe agnosia auditiva. De você falar (estralando os dedos)… A pessoa com esse problema vai falar “to ouvindo um barulho” e não identifica. Balanço um molho de chaves com a pessoa que essa doença e ela não reconhece.

00:31:29 – 00:31:35 Felipe
E geralmente quando alguém tem um tipo de patologia neurológica tem propensão a ter outras ou não?

00:31:36 – 00:31:52 Francisco
Não, como qualquer outra doença corporal você pode ter uma e não ter outra.

00:31:52 – 00:31:53 Felipe
O que seria o jamais vu?

00:31:54 – 00:32:24 Francisco
O Jamais Vu é o contrario ao já visto. É o jamais visto. É a sensação de você nunca ter estado naquele local, mas você já esteve.

00:32:25 – 00:32:26 Felipe
Mas é só uma sensação passageira, depois de um tempo você identifica que já esteve lá.

00:32:27 – 00:32:30 Francisco
Ou não, pode persistir. É bem menos comum, menos comum.

00:32:30 – 00:32:31 Felipe
Você já teve um jamais vu?

00:32:32 -00:33:12
Eu pessoalmente não. Não tive essa experiência. Gostaria. Deja Vu sim. Eu já estive aqui! Não estive. Sensação pode ser porque eu talvez já estive em local semelhante, ou uma circunstancia semelhante. E alguma coisa daquele ambiente disparou um gatilho naquela circuitaria que me trouxe essa impressão.

00:33:13 – 00:33:24 Yasmin
E o Deja Vu ocorre em um espaço de tempo né. Tem um momento que a gente percebe que estamos tendo (momento de curta duração) e logo depois parece que se perde.

00:33:25 – 00:33:40 Francisco
É porque geralmente você pode fazer uma avaliação racional do que tá acontecendo e chega a uma conclusão que é uma impressão minha. Tem que ser uma impressão minha. Ai aquilo se dissipa.

00:33:41 – 00:37:09 Felipe
Esse é um livro não sei se você conhece chama Portas da Percepção, do Audous Huxley (Francisco: não nunca li esse livro), é um relato dele que ele faz na década de 60 acho, ele toma Mescalina, não sei se você ta familiarizado com a substancia (Francisco: é um psico estimulante, alucinogeno). Isso. (Yasmi: ele toma como experimento). É tem acompanhamento de um psicólogo e ele vai relatando a experiência, e depois ele faz um estudo, busca referencias e tal. E ai tem uma passagem que ele cita a questão do funcionamento do cérebro e ai ele fala, não sei se você prefere ler do que eu (Francisco: eu até li no começo). Você leu? Então porque ele fala dessa questão de que o cérebro funcionaria como uma forma de válvula de redução que seria uma forma de sobrevivência mesmo. Pra você se prender as coisas materiais e que seria a causa da gente perceber a vida do jeito que percebemos. E ai ele fala que durante a experiencia dele com a mescalina é como se essa válvula fosse destruída e ele tivesse uma abertura a novas percepções, por isso que o livro chama Portas das Percepção. E ai em uma passagem ele que: “O cérebro é dotado de um certo número de sistemas enzimáticos que servem para coordenar seu funcionamento. Algumas dessas enzimas visam a regular o fluxo de glicose destinado a alimentar as células cerebrais. A mescalina inibindo a produção  dessas enzimas, diminui a quantidade de glicose à disposição de um órgão que tem uma fome constante de açúcar. E que acontece quando o metabolismo do açúcar no cérebro é reduzido pela mescalina?” Então a pergunta que eu queria fazer é relacionada a isso, se isso é fato realmente, se o cerebro funciona dessa forma e se essa inibição ela pode acarretar outras maneiras de você perceber o mundo.

00:37:09 – 00:39:24 Francisco
A imprecisão que existe talvez por uma linguagem leiga, talvez a tradução. O cérebro funciona, a comunicação entre os neurônios funciona a base de substancias químicas, chamados neurotransmissores. Onde existe a transmissão de um neurônio para outro. E existem outras substancias que elas são liberadas na região e atuam sobre um grupo de neurônios. A gente chama neuromoduladores. De forma que realmente o cérebro, a transmissão de informações no cérebro… bilhões de circuitos! Elas ocorrem com a utilização de substancias químicas chamadas neurotransmissores, não são enzimas. Existem enzimas também, mas as enzimas são utilizadas no metabolismo dessas substancias. Então são substancias, existem muitas substancias. Nos temos acetilcolina não sei se já ouviu falar relacionada aos circuitos de memória, adrenalina é um mediador químico, essa é conhecida porque é relacionada as emoções fortes, o medo. Mas então são neurotransmissores. Mas agora, se você introduz no seu cérebro uma substancia estranha que tem a função de bloquear, ou estimular uma outra substancia, um neurotransmissor ou um neuromodulador, essa substancia que você esta introduzindo no seu cérebro vai provocar alterações no funcionamento daquela região, daquele circuito. E daí vai provocar uma sensação, um sentimento, uma idéia. Um produtor mental. Pode ser uma alucinação. Então você introduz uma substancia estranha que atua no seu cérebro, nas células cerebrais, que modifica o funcionamento e o conjunto disso é uma produção mental de uma alucinação.

00:39:24 – 00:39:50 Felipe
Porque o que ele defende muito é que a forma que a gente enxerga o mundo é a forma como o nosso cérebro ta condicionado e apartir do momento que você não tem essa válvula de redução que você enxergaria o mundo de uma outra forma, que o mundo seria diferente. Então ele conversa muito com essa questão do olhar, queria que você desse uma opinião particular mesmo sobre esse assunto.

00:39:50 – 00:43:25
Isso é um extremo de uma possibilidade de você modificar sua visão do mundo. Instantaneamente, você introduz uma substancia que modifica o funcionamento das células, que provocam ativação de determinados circuitos que não funcionam normalmente naquela situação e ai você faz a produção mental de idéias de sensações, percepções, etc. Você pode conseguir isso de outras formas, os iogues conseguem esse tipo de mudança de percepção através da ioga e da meditação. Então existem maneiras diferentes. Realmente o mundo que você vê, cada pessoa tem um mundo né? O meu mundo é diferente do seu, o mundo que eu percebo é diferente do seu. Existe uma quantidade muito grande de sinais que nos interpretamos de forma parecida, por isso tudo que esta nessa sala a gente reconhece de forma parecida ta certo? Voce reconhece isso como um óculos, e veja você esta olhando isso de um ângulo e eu estou olhando de outro. Mas nos identificamos como sendo o mesmo objeto. Mas o mais interessante que você entenda é que não há como você ver um mundo real. Porque aquela informação que você está tendo seja visual ou tátil, ela tem que ser transcrita para cabeça, para o circuito do cérebro. Então você conhece um quadro de magrite, chamado cachimbo. Tem um cachimbo e embaixo ta escrito “isso não é um cachimbo”. É isso que ele quer dizer. É uma representação de um cachimbo, tudo você é reconecivel… mas não é um cachimbo de verdade! Entao todo o seu mundo que cabe na sua mente, é uma representação do mundo real. E você pode mudar o seu mundo pra melhor ou pra prior. Você tem o livre arbítrio. Pode procurar percepções diferentes com drogas, pode procurar percepções diferentes fazendo ioga, pode procurar percepções diferentes ouvindo musica. Porque você pode alterar o seu estado de consciência, de percepção fazendo alguma coisa extremamente prazerosa como ouvir musica por exemplo, ver um bom filme.. ver um belo filme do Bergman.. então você muda a visão do mundo. Não precisa de nenhum alucinógeno……….. As palavras reduzem a idéia.

00:43:26 – 00:43:26 Felipe
É! O Nietsche fala isso.

00: 43:26 – 00:43:38 Francisco
Fala…. A fala reduz a ideia. Mas a fala tem vida própria também, ela também provoca idéias. Tem o outro lado da coisa.

00:43:38 – 00:45:30 Felipe
Porque essa é um pouco a idéia do curta, é debater essas idéias e montar isso que você falou que cada um pode interpretar o mundo de uma forma. A metáfora que vai permear um pouco nosso documentário é justamente aquela lenda dos seis cegos e o elefante. È uma fabula que acontece na india que um elefante chega na cidade e existiam os seis cegos e eles queriam descobrir o que era esse animal um pouco o que você falou da agnosia, então eles queriam tocar pra descobir então cada um foi numa parte, um foi na pata, outro foi na orelha, outra na barriga… E ai o da tromba fala não esse animal parece uma cobra, mas não tem dente, enquanto o outro que tava segurando no rabo dizia não você ta errado isso parece uma cordinha pendurada na parede… e todos estavam certos e errados ao mesmo tempo. Então é mais ou menos essa idéia que a gente ta permeando, porque você enxerga o mundo, mas não tem a visão do todo porque é justamente o que você falou que é uma interpretação que é um.. não só a palavra limita mas nosso cérebro também nesse sentido que o autor coloca com a questão da válvula de redução… Então o que eu queria te perguntar pra terminar é se você acredita que algum dia a medicina vai conseguir entender o cérebro, seu funcionamento completo.

00:45:31 –00:50:10 Francisco
Eu acho pouco provável. Que a ciência possa desvendar o cérebro a ponto de não ter segredos mais. Acho muito pouco provável. Justamente por isso, porque você vai chega num nó, nessa projeção de conhecimentos que é quando você vai bate na representação das coisas. O cérebro tem a capacidade de perceber, é como essa sensação que essa você teve, ou que essa pessoa do experimento teve, precisaria que as pessoas tivessem a potencialidade para entender o que esta acontecendo no próprio cérebro. É difícil explicar isso, mas como um cientista vai entender o funcionamento integral do cérebro, se pra isso ele precisa do cérebro dele que utiliza símbolos. (Felipe: ele precisa da lógica pra entender a própria lógica). É ele tendo o raciocínio ele pode ter lógica, outros recursos de interpretação, mas o que eu to falando é assim: como que um cientista poderá compreende o que ocorre, o que se passa no cérebro, aquela essência final do entendimento dos símbolos que o cérebro produz, daquilo que ele vê, daquilo que ele toca, ele sente. Como que o cientista vai entender isso se pra isso ele precisa de seu cérebro que utiliza símbolos. (Felipe: é a idéia do cego, ele tá palpando mas ele não ta vendo de fora né, ele ta dentro da situação.) Eu não consigo imaginar essa situação não, em relação a função mental que é o principal produto do cérebro. É fácil a gente pensar nisso com relação a outros órgãos, como que o fígado funciona. Menos difícil. O cérebro é um órgão especial. O Wood Allen disse que é o segundo órgão predileto dele. (Felipe: eu não quero saber qual é o primeiro!)Nem eu!

Acho que foi interesante essa busca de vocês. É que é tanta coisa que vocês tão com dificuldade de paltar. (Felipe: exatamente, é muito abstrato). São conhecimentos diferentes, percepção, memória, medo, são coisas distintas. Nos passamos por coisas muito distintas.. talvez voces tenham que ver, dar uma filtrada e ver o que apareceu de mais interessante, recorrente…

~ por felipecarrelli em 29/05/2010.

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